sábado, 3 de dezembro de 2011

Anti-Realismo: O Argumento da Relatividade

O Argumento da Relatividade parte da observação de que sociedades diferentes têm códigos morais diferentes. Na nossa sociedade talvez pensemos que é um pouco excessivo decapitar as pessoas por adultério. Noutras sociedades considera-se isso perfeitamente justo. Na nossa cultura a circuncisão de raparigas é considerada bárbara e errada. Mas noutras culturas esta prática é considerada normal. No entanto, como Mackie sabe muito bem, esta variação por si nada nos diz sobre metaética: o facto de pessoas diferentes terem crenças diferentes sobre x não serve de muito como argumento a favor do cepticismo relativamente a x. (As pessoas discordaram quanto a quem venceria o Campeonato do Mundo, mas isso não impediu que algumas delas tivessem razão.)
Na verdade, sob um exame cuidado vemos que o argumento diz respeito à explicação do desacordo. Se algum de vocês discordasse de mim quanto a uma questão factual não-moral, isso poderia suceder por um de nós ter uma teoria de fundo falsa, por um de nós estar a raciocinar mal ou por um de nós não dispor de dados adequados; e o mesmo sucede quando duas culturas se encontram em desacordo. Mas, segundo Mackie, quando encontramos um desacordo moral entre duas culturas a explicação de que precisamos é meramente sociológica. Estas têm modos de vida diferentes e o seu desacordo moral reflecte isso.
Suponha-se que acreditamos que descendemos de primatas, os mesmos primatas de que os chimpanzés e os gorilas descendem. Por que acreditamos nisto? Bom, provavelmente acreditamos nisto porque isto é verdade: porque estes são efectivamente os factos, e esses factos deixaram certos vestígios susceptíveis de ser descobertos no registo fóssil, nos nossos genes, nas estruturas anatómicas dos nossos corpos e na distribuição biogeográfica das espécies. Depois aparecemos, descobrimos estes vestígios e usámos técnicas científicas e analíticas sofisticadas – datação por carbono, análise estatística e assim por diante – para deduzir e apoiar a teoria em questão. Mas talvez a tribo Kambu (não procurem referências a ela, pois inventei-a) não acredite nisto. Os seus membros acreditam que os deuses nos criaram a partir de metal que tiraram do centro do sol. E podemos explicar isto sugerindo que os Kambu desconhecem os dados e as técnicas que nós conhecemos.
Suponha-se agora que os Kambu têm uma reverência e um respeito profundos pelos que são hábeis e bem sucedidos a mentir. Entre os Kambu, nada é melhor para ficar bem visto aos olhos dos outros que cometer fraudes eficazes sem ser apanhado. E suponha-se que os seus vizinhos, os Membini (que também inventei), são muito diferentes a este respeito. Os Membini têm uma moralidade de escrupulosa honestidade e são contra o menor desvio relativamente a esta. Se a ética fosse como a biologia, diríamos uma vez mais que estava aqui em questão um facto genuíno – talvez o facto de os Membini terem razão – e que o desacordo se devia ao acesso a melhores dados ou à melhor capacidade de raciocinar dos Membini. Mas Mackie pensa que não podemos esperar obter aqui este tipo de explicação. Tudo o que podemos dizer, afirma, é que as sociedades dos Kambu e dos Membini são muito diferentes nos mais diversos aspectos, e podemos esperar, no caso de sermos bons antropólogos, descobrir uma boa maneira de entender as diferenças no seu modo de vida que se reflectem nas suas diferentes moralidades. Mas é pura e simplesmente errado, defende, pensar que há uma verdade a que as duas tribos não conseguem aceder com o mesmo sucesso.

James Lenman

Haverá provas em ética?

James Rachels
Se o subjectivismo ético não é verdadeiro, por que razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem a ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo, a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo, e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?
A ideia general de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar "provar" que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia.
Suponha-se que examinamos um assunto muito mais simples que o aborto. Um aluno considera injusto um determinado teste aplicado por um professor. Trata-se, claramente, de um juízo moral — a justiça é um valor moral essencial. Este juízo pode ser provado? O estudante poderia referir que o teste abrangia em pormenor assuntos sem importância, ignorando outros que o professor tinha considerado importantes. O teste incluía ainda perguntas sobre alguns assuntos que não tinham sido tratados nem nas aulas teóricas nem nas práticas. Além disso, o teste era tão longo que nem os melhores alunos podiam terminá-lo no tempo permitido (e foi cotado partindo do princípio que deveria ser feito até ao fim).
Suponha-se que tudo isto é verdade. E suponha-se ainda que o professor, quando lhe são pedidas explicações, não tem argumentos para se defender. Na verdade, o professor, que é muito inexperiente, parece confuso com toda a situação e não parece ter uma ideia clara do que estava a fazer. Assim sendo, não terá o aluno provado que o teste foi injusto? Que mais poderíamos desejar a título de prova? É fácil imaginar outros exemplos para estabelecer a mesma coisa:
Jones é um homem mau. Tem o hábito de mentir; manipula as pessoas; engana-as quando pensa poder fazê-lo sem ser descoberto; é cruel para os outros; e assim por diante.
O Dr. Smith é irresponsável. Baseia os seus diagnósticos em avaliações superficiais; bebe antes de executar cirurgias delicadas; recusa ouvir os conselhos de outros médicos; e assim por diante.
Uma determinada vendedora de automóveis é desonesta. Esconde os defeitos dos automóveis; aproveita-se de pessoas sem recursos pressionando-as a pagar preços exorbitantes por automóveis que sabe terem problemas; coloca anúncios publicitários enganadores em qualquer jornal que aceite publicá-los; e assim por diante.
O processo de apresentar razões pode ainda ser levado um passo mais adiante. Se uma das nossas razões para afirmar que Jones é um homem mau é ele mentir habitualmente, podemos prosseguir e explicar por que motivo mentir é mau. Mentir é mau, primeiro, porque prejudica as pessoas. Se alguém dá uma falsa informação a outra pessoa e essa pessoa confiar nela, as coisas podem correr mal de diversas maneiras. Segundo, mentir é mau por ser uma violação da confiança. Confiar noutra pessoa significa ficarmos vulneráveis e desprotegidos. Quando se confia em alguém, acredita-se simplesmente no que essa pessoa diz, sem tomar precauções; e quando essa pessoa mente, aproveita-se da nossa confiança. É por isso que ser enganado constitui uma ofensa tão íntima e pessoal. Por fim, a regra exigindo que não se minta é necessária para a sociedade poder existir — se não pudéssemos partir do princípio que as outras pessoas dirão a verdade, a comunicação tornar-se-ia impossível e, se a comunicação fosse impossível, a sociedade seria impossível.
Portanto, podemos apoiar os nossos juízos em boas razões, e podemos oferecer explicações do porquê de essas razões terem importância. Se podemos fazer tudo isto, e ainda mostrar que nada de semelhante pode ser feito pelo lado contrário, que mais "provas" poderia alguém desejar? É absurdo afirmar, perante tudo isto, que os juízos éticos não podem ser mais que "meras opiniões".
No entanto, a impressão de que os juízos morais são "insusceptíveis de prova" é extraordinariamente persistente. Por que motivo acreditam as pessoas nisto? Podem mencionar-se três pontos.
Primeiro, quando se exige provas as pessoas têm muitas vezes em mente um padrão inadequado. Estão a pensar em observações e experiências científicas; e se não há observações e experiências similares em ética, concluem que não há provas. Mas em ética o pensamento racional consiste em fornecer razões, analisar argumentos, estabelecer e justificar princípios, e outras coisas que tais. O facto de o raciocínio ético ser diferente do raciocínio científico não o torna deficiente.
Segundo, quando pensamos em "provar a correcção das nossas opiniões éticas", tendemos a pensar automaticamente nas questões mais difíceis. A questão do aborto, por exemplo, é muito complicada e difícil. Se pensarmos apenas em questões como esta torna-se fácil acreditar que as "provas" em ética são impossíveis. Mas poderia dizer-se o mesmo das ciências. Há matérias complicadas sobre as quais os físicos não conseguem chegar a acordo; se nos concentrássemos apenas nelas poderíamos concluir que não há provas em física. Mas, é claro, há muitos assuntos mais simples sobre os quais todos os físicos competentes estão de acordo. De modo semelhante, em ética há muitos assuntos mais simples sobre os quais todas as pessoas razoáveis estão de acordo.
Por fim, é fácil misturar duas coisas que são na realidade muito diferentes:
  1. Provar a correcção de uma ideia.
  2. Persuadir alguém a aceitar as nossas provas.
Podemos ter um argumento exemplar que alguém recusa aceitar. Mas isso não significa que tenha de estar alguma coisa errada com o argumento ou que a "prova" seja, de alguma forma, inatingível. Pode apenas significar que alguém está a ser teimoso. Quando isto acontece não deveria surpreender-nos. Em ética é de esperar que as pessoas por vezes recusem dar ouvidos à razão. Afinal de contas, a ética pode exigir a realização de coisas que não queremos fazer, sendo, pois, muito previsível que tentemos evitar ouvir as suas exigências.

James Rachels

Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves